23 de dezembro de 2013
Consórcio conduzido pela ABAL possibilita a produção de carroceria aberta totalmente em alumínio.

João André de Moraes |

Há muito tempo a indústria nacional do alumínio acalenta o desejo de desenvolver uma carroceria aberta totalmente produzida em alumínio. Mais do que o interesse estratégico, afinal mundialmente o segmento de transportes é o principal consumidor do metal, a Abal acredita que o uso intensivo do alumínio neste modelo – que é o implemento mais comercializado no mercado nacional – tem potencial para revolucionar a competitividade e a sustentabilidade do transporte de carga seca do país.

As razões são muitas. A leveza garantida pelo uso do alumínio aumenta a capacidade de carga da carroceria, tornando possível a redução de frota e tem impacto direto nas reduções do consumo de combustível, emissões de CO2 e manutenção do veículo – com menor desgaste de peças. A elevada resistência à corrosão do metal dispensa pintura e prolonga a vida útil do equipamento; além do elevado valor residual como sucata infinitamente reciclável.

Com tantos benefícios possíveis para o setor de transportes, a Abal tomou para si a missão de encontrar meios de desenvolver a então inédita carroceria e descobriu na Noma, uma das maiores fabricantes de implementos rodoviários do Brasil, o parceiro ideal para a execução do projeto.

O trabalho, que teve início no primeiro semestre de 2012 com a criação do Grupo de Trabalho Carga Seca da ABAL, contou com a participação decisiva de dez empresas associadas, que agregaram seus profundos conhecimentos técnicos para o desenvolvimento do produto: Alcoa, Alpex, Belmetal, Votorantim Metais-CBA, Isa, Metalis, Perfil, Perfileve, Prolind e Sapa.

Para o coordenador do GT Carga Seca, eng. Marcelo Gonçalves, a formação desse consórcio foi um dos pontos mais relevantes do projeto. “Na Europa, Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul é mais frequente encontrarmos empresas concorrentes se sentando à mesa para desenvolverem projetos competitivos que sejam de interesse comum; já em nosso país isso é algo raro”, ressalta.

A experiência positiva do consórcio tem sido elogiada pelos participantes (veja Box na matéria), pois ficaram claras as inúmeras possibilidades abertas pelo formato de trabalho. Marcos Noma – presidente de uma das maiores fabricantes de carretas da América do Sul, com produção de 7.600 unidades anuais – afirma ter ficado impressionado ao descobrir as novas aplicações do alumínio e exalta o modelo adotado em todo o processo de trabalho: “Como se trata da aplicação de um novo conceito, a  soma de ideias auxilia no desenvolvimento do projeto”.

Apresentada no estande da Noma durante a Fenatran 2013, a carroceria carga seca 100% alumínio já gerou até sondagens para compra. No entanto, o produto construído pela Nomma ainda passará por uma fase de testes, com duas unidades construídas para esse fim. Tanta empolgação se deve ao ineditismo que percorre todas as etapas do projeto. O resultado foi um implemento que se destaca por aliar várias vantagens, principalmente a capacidade de carga de 2,2 toneladas/m² – a única na categoria.

A carroceria é fabricada com o uso intensivo de perfis extrudados e adota chapas de alumínio, na liga 5052 H34, para o piso. Foram criados 20 perfis específicos para serem aplicados em longarinas, travessas, malhal, fueiros, tampas laterais e traseiras. As partes estruturais foram extudadas na liga 6082 T6 e as demais na liga 6005A T6. Todas as ligas especificadas atendem aos critérios de oferta da produção brasileira, bem como garantem maior resistência ao produto final.

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Carga seca 100% em alumínio: a mais leve da categoria com capacidade de carga de 2,2 toneladas/m²

Durante a fase de projeto, 70 situações de carregamentos e amarrações de carga foram simuladas em computador. Gonçalves explica que os estudos consideraram ainda detalhes de posicionamento, distribuição irregular e deslocamento da carga em razão de frenagens e acelerações abruptas, situação das rodovias e outros aspectos comuns ao transporte rodoviário brasileiro. “Nunca houve um projeto estrutural com esse nível de detalhamento”, garante. A partir dessas simulações definiu-se as vigas e os desenhos necessários para evitar deformações e, dessa forma, criar um implemento mais robusto, porém leve. Pesa apenas uma tonelada, sendo 44% mais leve que as carrocerias usuais de madeira, mas sem o ônus ambiental, e 50% a menos que uma similar em aço.

A facilidade de montagem sempre constou nos objetivos do projeto. Marcos Noma comenta que ao dispensar o uso de solda, o processo de fabricação acaba por ser simplificado, mais rápido e com menor custo. “A grande vantagem é a flexibilidade”, ressalta. E lembra: “pelo lado do transportador, a ausência de soldas também é benéfica, pois permite que o produto fique menos sujeito a quebras por fadiga do material”.

Desenvolvida para um caminhão truck de três eixos e 8,5m de comprimento, a carroceria carga seca de alumínio oferece ainda o melhor retorno financeiro ao transportador e em menor espaço de tempo. Estudos realizados pela Abal, em parceria com a Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) mostram que ao final de oito anos, em condições médias operacionais típicas de uso, em termos de ocupação e ociosidade, um veículo com o equipamento de alumínio pode gerar R$ 65,8 mil de lucro.

Sem dúvida um ótimo desempenho, quando comparado aos resultados obtidos com os implementos em aço e em madeira, que proporcionam nas mesmas bases lucros inferiores, R$23,9 mil e R$ 28,6 mil, respectivamente. Em relação ao retorno de investimento, a carroceria aberta de alumínio consegue recuperar os valores aplicados em sua aquisição em apenas 44 meses, contra 68 da versão de madeira e 89 meses da em aço.

Gonçalves ressalta que o projeto abre várias perspectivas, pois é totalmente customizável e permite que novos modelos e tamanhos sejam criados. “Existe, por exemplo, a possibilidade de a carroceria ser encurtada”, comenta. A ideia é explorar essa experiência para desenvolver, em um futuro próximo, soluções nacionais que atendam a outros setores, como o graneleiro.

Depoimentos das empresas participantes do consórcio ABAL

“É extremamente gratificante apoiar uma iniciativa inédita que promove o uso do alumínio no transporte rodoviário. O Projeto ABAL Carga Seca é inovador em diversos sentidos, a começar pelo ineditismo, já que no Brasil ainda não havia um implementador que fizesse a carroceria toda em alumínio. Além disso, inova na forma como o estudo foi elaborado, por meio de um consórcio de empresas privadas, cujo propósito é mostrar ao mercado que o setor detém tecnologia de ponta para oferecer todo tipo de suporte técnico necessário para a aplicação de alumínio em implementos rodoviários. Para a Alpex, este é um dos segmentos de interesse nos próximos anos, por isso consideramos de extrema importância a participação estratégica neste consórcio”.
– Paulo Magalhães, diretor Comercial e de Comunicação e Marketing da Alpex Alumínio S.A.

“A decisão de participar do Projeto foi motivada pelo fato de que existe um nicho de mercado muito grande: consumo anual de mais de 100 mil carrocerias abertas de madeira. Essa demanda pode migrar para alumínio por conta das grandes vantagens da carroceria apresentadas pelo metal. A Belmetal já atende o segmento de transportes, fornece perfis e chapas de alumínio para a fabricação de carrocerias do tipo baú. É uma oportunidade ofertar uma carroceria aberta de alumínio para os fabricantes, transportadoras e motoristas de caminhão, que com certeza se beneficiarão das vantagens competitivas do alumínio na indústria de transportes”.
– Marcos Eiji Oyama, analista de Desenvolvimento de Produtos da Belmetal Indústria e Comércio Ltda.

“Além da oportunidade de divulgação do produto e da marca do grupo, o consórcio tornou os custos acessíveis a todas as empresas. Dividimos novas tecnologias e conseguimos reaproximar os participantes. Ficou demonstrado realmente que a ‘união faz a força’, pois o resultado foi um produto robusto, prático, funcional, com grande apelo de mercado, e, principalmente, com muitos pontos fortes: mais leve que os produtos similares e bem mais ecológico pois é 100% reciclável. Este Projeto abrirá as portas para outras indústrias, sem contar os encarroçadores. Temos certeza que colheremos bons frutos com a participação no Projeto”.
– Arnaldo R. Lania, Comercial, ISA Perfis de Alumínio Ltda.

“Desde o início apoiamos a ideia do desenvolvimento de uma carroceria aberta totalmente em alumínio. A Metalis, além de ser uma das maiores distribuidoras de laminados do Brasil, também tem interesse no Projeto por estar investindo em duas prensa de extrusão na Alumínio Nordeste, em Pernambuco. Temos confiança no fornecimento ao mercado destes tipos de perfis e aumentar o consumo do alumínio no setor de transportes. Acredito que com o decorrer do tempo, poderemos seguramente em curto prazo introduzir no mercado essas carrocerias de alumínio”.
– Luigi Lombardi, gerente Comercial da Metalis Aluminum Ind. e Com. Ltda.

“Achei a ideia da formação do consórcio excepcional, pois possibilitou o desenvolvimento de um projeto com alto grau de complexidade, que seria absolutamente inviável de ser feito por apenas uma das empresas. Foi a multiplicação de competências aliada à divisão de custos. Embora o Projeto ainda possa ser aprimorado, tivemos um resultado absolutamente dentro da expectativa, tanto de engenharia como de viabilidade comercial. Desenvolvemos um produto que será um grande sucesso no mercado, tanto por atender a demandas ambientais como dos transportadores”.
– André Pinho, Gerente Executivo, Perfil Alumínio do Brasil S.A.

“Para continuar crescendo, nossa empresa busca novas opções de mercado. O consórcio se mostrou muito positivo, pois seria um investimento expressivo para uma única empresa. O Projeto ficou bastante robusto, com possibilidade de atender praticamente todo segmento da carga seca e dando oportunidade aos participantes de procurarem sua identidade própria nas adaptações ao mercado doméstico. Cada empresa buscará sua opção de dobradiça, travas, acabamentos etc. Eu não tenho duvidas que em pouco tempo fabricaremos muitos perfis para este valoroso segmento”.
– Odair Britto Filho, gerente da Gonzales, Sendeski & Cia Ltda. – Perfileve.

“Participar do Projeto foi a possibilidade de abertura de novos negócios em um nicho de mercado ainda não explorado, que apresenta um altíssimo potencial de consumo. Atuamos fortemente no fornecimento de perfis e componentes para o segmento de transportes e nossas expectativas são as melhores possíveis. O Projeto se mostra bastante viável, pois a carroceria em alumínio apresenta a metade do peso de uma similar em madeira ou aço. Em pouco tempo a opção em alumínio conseguirá provar sua viabilidade econômica. Existe um alto potencial para este mercado, porém, quebrar alguns paradigmas e convencer os consumidores desses produtos pela nova opção exige ainda muito trabalho. Contudo, acreditamos que em 2014 já possamos começar a colher os frutos deste Projeto”.
– Carlos Alberto de Camargo, Gerente de Vendas da Prolind Industrial Ltda.

“A Sapa acredita que novas aplicações ajudam a garantir a evolução do mercado em médio e longo prazo. No Brasil, há ainda muitas aplicações do alumínio possíveis e não utilizadas, apesar de terem obtido sucesso em outros países. Os investimentos em desenvolvimento de novas aplicações costumam ser grandes e cercados de riscos. Assim, diluir os investimentos e dividir os riscos é uma saída muito interessante. Nós da Sapa esperamos que aconteçam iniciativas semelhantes no futuro.
O potencial do Projeto é enorme, mas ele não se realizará de maneira fácil. Há muito trabalho técnico e comercial pela frente. Há centenas de fabricantes de implementos rodoviários que precisam tomar conhecimento do produto, saber de suas possibilidades e limitações técnicas, avaliar a competitividade e aderir, ou não, à nova ideia. Alguém que já trabalha com alumínio terá mais facilidade para entender os conceitos e as vantagens. Por outro lado, os fabricantes de carrocerias de madeira encontrarão dificuldades para participar do processo e necessitarão de efetiva assistência por parte dos extrusores”.
– Adilson de Souza Molero, Desenvolvimento de Aplicações, Sapa Aluminium Brasil S.A.

“A criação de consórcios para o desenvolvimento de novos produtos, na forma de ‘open inovation’, é recente e muito ligada às relações de empresas com instituições de ensino – metodologia ainda pouco comum no âmbito industrial. No caso do mercado de alumínio, especificamente, acreditamos que seja um dos primeiros consórcios de tecnologia pré-competitiva em funcionamento no País. Tendo em vista que neste modelo compartilhamos os desafios tecnológicos e investimentos em prol do aumento de demanda de alumínio, para novas aplicações, a iniciativa do consórcio foi excelente.
Acreditamos que os novos programas de incentivo à redução de emissões, aliado aos aumentos nos custos dos transportadores, como mão de obra, seguros, combustíveis, entre outros, tornaram necessária a redução de peso dos implementos nacionais. Neste cenário, o produto carroceria carga seca, sendo um implemento de significativo número em uso, será um dos mais beneficiados para aplicação de alumínio”.
– Heber Pires Otomar, gerente de Desenvolvimento de Mercado da Votorantim Metais – CBA

Sonho se torna realidade
Um comentário sobre a matéria:
  • 17/05/2017 às 11:08

    Bom dia, somos fabricantes de carrocerias de madeira, temos interesse em ampliar novos projetos.
    Há interesse em fazer parceria?

    Responder

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