1 de dezembro de 2017
Estudo publicado por instituição americana afirma que metas do CAFE colaboraram para reduzir fatalidades nos acidentes de trânsito

Poucos mitos ainda resistem frente à tendência global da redução de peso nos veículos, processo que, cada vez mais, resulta na adoção de conteúdos de alumínio nos novos projetos automobilísticos. Um deles envolve a questão da segurança – existe a crença de que veículos mais leves seriam menos seguros para seus ocupantes, provocando um número maior de fatalidades em caso de acidentes. Tal discussão voltou a ganhar força nos Estados Unidos em 2018, já que a administração de Donald Trump, em mais uma iniciativa controversa, busca revisar as metas mais agressivas de redução de consumo de combustível do CAFE (Corporate Average Fuel Economy – Média Corporativa de Economia de Combustível) que foram estabelecidas no mandato de Barack Obama e, assim, devem acelerar o processo de redução de peso da frota.

Redução de peso e segurança

O estudo intitulado “The Effect of Fuel Economy Standards on Vehicle Wheight Dispersion and Accident Fatalities” (O Efeito dos Padrões de Economia de Combustível na Dispersão de Peso e Acidentes Fatais), publicado pelo National Bureau of Economic Research (Bureau Nacional de Pesquisas Econômicas), aponta que as metas de redução de consumo de combustível do CAFE, e a consequente redução do peso médio dos veículos da frota norte-americana, na realidade contribuem para salvar vidas. “O paper mostra que, mesmo que os benefícios ambientais fossem muito baixos, ou mesmo inexistentes, do ponto de vista da segurança haveria um motivo muito forte para seguir com as metas de consumo”, disse Antonio Bento, especialista em Economia Ambiental da University of Southern California, um dos co-autores do estudo, em entrevista ao The Washington Post.

A questão começa com uma análise superficial de uma possível colisão entre dois veículos. No choque entre dois veículos de mesmo porte, ambos utilitários-esportivos de peso equivalente, por exemplo, a energia é dissipada de forma homogênea. No entanto, se substituirmos um dos SUVs por um subcompacto, muito mais energia será direcionada para o veículo com massa menor – aumentando as chances de lesões ou de uma fatalidade em seus passageiros.

Dispersão de peso
Os pesquisadores explicam que esta é uma avaliação incompleta, pois examina apenas os efeitos da redução individual de peso do veículo, não os efeitos gerais que as metas de consumo impõe para a frota total em circulação como um todo. É uma distinção importante. “O que as metas do CAFE fazem não é reduzir o peso de apenas um dos veículos”, diz Kevin Roth, economista ambiental da Universidade da Califórnia em Irvine – e outro co-autor da pesquisa, na mesma reportagem do Washington Post. “O peso de toda a frota é alterado”. Além de Bento e Roth, o paper também é assinado por Kenneth Gillingham, da Universidade de Yale.

A pesquisa teve seu foco em dois efeitos das metas do CAFE: a redução do peso médio de todos os veículos em circulação e a mudança na dispersão de seu peso – ou seja, a diferença no peso individual dos carros, entre os modelos mais leves e os mais pesados. A dispersão de peso, como se pode concluir pelo exemplo anterior, é o grande vilão da questão. Voltando ao exemplo da colisão entre o utilitário-esportivo e o subcompacto, segundo os pesquisadores, o problema não é o fato do subcompacto ser leve, mas sim o fato de atingir um outro veículo de dimensões muito maiores.

O estudo
Para entender como as metas do CAFE, estabelecidas a partir de 1975, afetaram a segurança dos automóveis, os pesquisadores analisaram dados dos veículos vendidos nos Estados Unidos entre 1954 e 2005. O período de 20 anos anteriores ao início do programa permitiu avaliar com maior precisão a questão do peso dos automóveis antes e depois do CAFE. Também foram avaliados relatórios policiais de 17 milhões de acidentes de veículos, ocorridos em 13 estados americanos, entre 1989 e 2005 – categorizados entre aqueles que produziram ou não fatalidades e, também, de acordo com o peso dos veículos envolvidos.

Depois disso, todos os acidentes registrados entre 1989 e 2005 foram submetidos a uma simulação computadorizada para apurar os prováveis resultados desses acidentes se as metas de economia de combustível não tivessem sido implementadas, ou seja, se os veículos tivessem mantido o peso médio de suas categorias antes de 1975. Isso foi feito usando a técnica de regressão quantitativa RIF (Recentered Influence Function).

Dependendo de algumas variáveis, os pesquisadores concluem que haveriam entre 171 e 439 mais fatalidades neste período de 16 anos se a política do CAFE não tivesse sido implementada. Ou seja, segundo os pesquisadores, é possível afirmar que, além de promover a redução da emissão de poluentes e de gases do efeito estufa, as metas do CAFE também ajudaram a salvar vidas.

Apesar disso, os pesquisadores ressaltam que o estudo não abrange a recente atualização promovida na administração Obama, uma vez que ainda demandarão alguns anos até que aconteçam alterações perceptíveis na composição da frota circulante. Mas, por outro lado, garantem que não há motivo para crer que o fim das metas de consumo resultá em qualquer aumento na segurança dos ocupantes dos veículos nas ruas e estradas.

Virtudes do alumínio
O alumínio vem sendo o material preferido da indústria automobilística para promover a redução de peso tendo em vista as metas de redução de consumo de combustível e de emissões de poluentes e de gases causadores do efeito estufa. Recente estudo da Ducker Worldwide, realizado na América do Norte sob encomenda da Aluminum Association, mostra que, como as metas do CAFE referem-se a toda a frota de veículos, a adoção do alumínio ocorre prioritariamente nos modelos de maior massa. E isso ajuda a reduzir a dispersão de peso.

Além disso, vale lembrar que o alumínio é um material que, em comparação com o aço, consegue absorver até duas vezes mais energia. Dessa forma, sua utilização em sistemas de crash-boxes também é uma forma de fazer com que a questão da dispersão de peso seja minimizada em colisões – tanto que existe uma proposta de adoção desse sistema em caminhões na Europa – exatamente para reduzir os riscos no caso de acidente com carros de passeio.

Redução de peso nos carros salva vidas

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