12 de dezembro de 2016
Estudo confirma que, nos EUA, taxa de reciclagem de alumínio automotivo é superior à 90%

Por Marcio Ishikawa |

Cerca de 91% do alumínio utilizado nos automóveis que são descartados nos Estados Unidos é reciclado. Esta é uma das principais conclusões de um amplo estudo realizado pelo Centro para Recuperação e Reciclagem de Recursos, do Instituto Politécnico de Worcester (WPI), em Massachussets, Estados Unidos. Batizado de “Automotive Aluminum Recycling at End of Life: A Grave-to-Gate Analysis” (Reciclagem do Alumínio Automotivo no Final do Ciclo de Vida: Uma Análise do Túmulo ao Portão), a pesquisa foi financiada pela Aluminum Association (AA) e examinou a proporção do alumínio usado no setor de veículos leves dos Estados Unidos que é recuperado e reciclado ao término da vida útil dos automóveis, além de explorar os processos envolvidos.

Reciclagem do alumínio automotivo
Reciclagem de alumínio automotivo (foto: ABAL)

“Nós conseguimos detalhar exatamente como o alumínio é separado e recuperado ao fim do ciclo de vida do veículo e os dados mostram que ele é altamente reciclado e reutilizado em altas taxas”, disse o Professor Diran Apelian, diretor fundador do Instituto de Processamento de Metais da WPI. Ele ainda ressalta a importância do alumínio diante dos maiores desafios encontrados atualmente pelo setor industrial mundial, como a redução no consumo de energia, a diminuição das emissões de carbono na atmosfera e, também, a melhora na eficiência energética dos veículos.

Valor e sustentabilidade
A alta taxa de reciclagem pode ser atribuída, em grande parte, ao valor econômico do alumínio, mesmo após a transformação em um produto final – como, nesse caso, os automóveis. O alumínio pode ser reciclado infinitas vezes sem nenhuma degradação, mantendo significativamente o seu valor, o que, segundo o estudo, criou uma cadeia estruturada, que realiza um esforço concentrado para recuperar uma “valiosa e leve mercadoria dos automóveis em final de vida”.

Além disso, a reciclagem dá aos fabricantes de veículos um fornecimento renovável de alumínio, através de operações de recuperação em circuito fechado, como foi feito pela Jaguar Land Rover, por exemplo, e também pela Ford, que lançou a F-150, o primeiro veículo de produção em grande escala a fazer uso intensivo do metal.

Reciclagem de alumínio automotivo
Reciclagem de alumínio automotivo (foto: World Aluminium)

A vantagem mais conhecida do alumínio é a leveza aliada à resistência, característica que permite a construção de veículos mais leves do que os produzidos em aço – o que, na prática, se traduz em uma melhor eficiência energética, com a redução do consumo de combustível e da emissão de poluentes e gases de efeito estufa. No entanto, a contribuição do alumínio com o meio ambiente vai muito além: o processo de reciclagem além de poupar recursos naturais, consome apenas 5% da energia utilizada para a produção do alumínio primário; portanto economiza muita energia reduzindo as emissões de CO2.

“O alumínio continua a mostrar o seu valor fundamental como uma solução sustentável em todos os estágios de vida de um automóvel”, disse Tom Boney, presidente do Grupo de Transporte da Aluminum Association e vice-presidente e gerente geral de Corrente de Valor Automotivo da Novelis na América do Norte. “Como os Estados Unidos e o restante do mundo continuam a se esforçar para um futuro ambientalmente amigável, o alumínio é uma grande parte da solução e esses novos dados apenas confirmam isso.”

O estudo
Para obter uma visão quantitativa do destino do alumínio automotivo ao final do ciclo de vida dos veículos, o projeto analisou os processos envolvidos, desde o momento do descarte do automóvel (chamado no estudo de ELV – End of Life Vehicle) até o momento em que o alumínio, já reciclado, entrava em um novo ciclo de vida, na forma de um novo produto. O estudo contemplou desde carros subcompactos até picapes, em um volume que superou a casa de 12,6 milhões de unidades descartadas por ano. A vida útil média foi de 16,9 anos para veículos de passeio e 15,5 anos para picapes e SUVs.

Após terem baixa em seu registro legal, os ELVs passam por diversos processos, descritos detalhadamente pelo estudo da Reciclagem do alumínio automotivo.

– Desmontagem: líquidos são drenados e itens de alto valor que podem ser vendidos sem maior tratamento (como pinças de freio, bombas d´água, motores de arranque e alternadores) são retirados e encaminhados para revendedores. Partes de alumínio removíveis são separadas em dois lotes: um de composição química conhecida (como rodas de liga leve) e outro de sucata com composição variada.

Foram pesquisadas as operações de 21 empresas que realizam o processo de desmontagem dos ELVs, localizadas em várias regiões dos Estados Unidos, fazendo com que a base do estudo represente aproximadamente 5% do mercado. Foram utilizados, também, dados de uma pesquisa de 2015 conduzida pela Recycling Today, que apontam os 20 maiores processadores de sucata não ferrosa no país.

Reciclagem de alumínio automotivo
Reciclagem de alumínio automotivo (foto: World Aluminium)

– Trituração e separação: após a retirada dos itens de valor (e também daqueles considerados perigosos, como baterias), é feita a compactação do restante do ELV em prensas. Os fardos são enviados para as trituradoras, onde em boa parte dos casos já se inicia o processo de separação magnética da sucata ferrosa da não ferrosa. Em seguida, o conteúdo é submetido a outros processos mecanizados (como separação com ar, por corrente de Foucault, por densidade). Há empresas que adquirem a sucata pré-triturada para dar sequência ao processo; outras realizam o trabalho de ponta a ponta.

O resíduo não ferroso (NFR – Non-Ferrous Residue, em inglês) pode ser composto de plásticos, borrachas, madeira, pedras, sujeira, vidro, espuma, tecido, metais não ferrosos, placas de circuito, fio isolado e alguns tipos de aço inoxidável. Do NFR, a maior parte do conteúdo de alumínio é ejetado durante a separação por corrente de Foucault. O Instituto de Indústrias de Reciclagem de Sucata (ISRI – Institute of Scrap Recycling Industries, em inglês) classifica este resíduo como Zorba – uma mistura fragmentada, de metais não-ferrosos, incluindo alumínio, cobre, chumbo, magnésio, aço inoxidável, níquel, estanho e zinco – mas que consiste, predominantemente, de vários tipos de ligas de alumínio.

Reciclagem de alumínio automotivo
Reciclagem do alumínio automotivo (foto: British Concil for Aluminium)

– Recuperação: toda a sucata é submetida a um pré-tratamento, químico ou com altas temperaturas (incineração), para reduzir contaminações de compostos orgânicos, especialmente presentes em tintas e vernizes que revestem o alumínio, além de outras impurezas. A separação da Zorba e da sucata mais densa se faz necessária devido a formação de escória durante o processo de fusão, que varia em função da relação entre a superfície da sucata de alumínio e seu volume, demandando tratamentos diferenciados.

A escória é um subproduto que se forma naturalmente durante a fundição do alumínio – que reage com o oxigênio formando óxido de alumínio durante o processo de fusão. Películas do óxido de alumínio formadas na superfície das partículas individuais emergem até a superfície do volume fundido, precisando ser removidas e enviadas para um processador de escória para recuperação metálica adicional.

Um aumento na formação de escória significa aumento na perda de metal alumínio, reduzindo o rendimento do processo de reciclagem. Para evitar essa perda, muitas vezes é feito uma mistura de diferentes classes de sucata (bitola leve e pesada) com alumínio primário, levando-se em conta o mix necessário para se atingir a liga desejada.

Por fim, as instalações secundárias de recuperação de alumínio produzem lingotes, placas para laminaçaõ e tarugos para extrusão. O estudo não se ateve aos produtos finais através dos quais o alumínio reciclado entra em um novo ciclo de vida, mas é consenso na indústria que rodas, para-choques, motores e transmissões estão entre os produtos mais comuns.

Conclusões
O estudo chega à conclusão de que 91% do alumínio utilizado atualmente na indústria automobilística é recuperado pelos sistemas de reciclagem nos Estados Unidos – uma taxa de Reciclagem do Alumínio Automotivo considerada eficiente e efetiva. No entanto, são ressaltadas as perdas do metal que vai para aterros, na forma de fragmentos de sucata e através das escórias em processos menos eficientes; Por isso, a otimização dessas etapas é prioritária para os processadores de coleta e recuperação de materiais.

A taxa de reciclagem determinada por este trabalho completa a noção benéfica de se usar o alumínio como uma alternativa leve para auxiliar no aumento da economia de combustível e na diminuição das emissões gasosas.

O texto ainda recomenda um estudo aprofundado sobre os produtos finais aos quais o alumínio reciclado é destinado – uma vez que esses dados serão de suma importância em um futuro próximo, à medida que o uso de alumínio automotivo está crescendo exponencialmente.

No Brasil
Embora a reciclagem de alumínio no Brasil tenha bons índices, abrangendo praticamente toda a sucata disponível – em 2014, o país reciclou 540 mil toneladas de alumínio -, a maior parte do material provém de latas de alumínio para bebidas, que responderam por nada menos que 289,5 mil toneladas – sendo o Brasil o maior reciclador de latas de alumínio, com 98% de reciclagem das latas usadas.

Existe potencial para o aumento da reciclagem do alumínio automotivo, uma vez que o conteúdo do metal nos automóveis nacionais vem aumentando. “Nos veículos produzidos no Brasil o alumínio está presente principalmente em rodas, partes mecânicas e agora mais frequentemente em motores”, explica Luide Reis, Gerente de Negócios de Reciclagem da Novelis. O executivo ainda lembra que, em um primeiro momento, essa demanda por alumínio em partes automotivas faz aumentar a necessidade de alumínio primário, inicialmente. “Mas o aumento da presença das ligas de alumínio e sua posterior reciclagem irão tornar esta relação mais equilibrada entre alumínio reciclado e primário.”

Vale lembra que, além da cadeia do alumínio em si, é preciso evoluir também no que diz respeito ao processo de descarte dos veículos. A lei do desmanche, que regulamenta a atividade, por exemplo, só foi aprovada recentemente, em 2014.

Cadeia de valor

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