12 de fevereiro de 2016
BYD inicia produção nacional de ônibus elétricos, que tem custos operacionais reduzidos com a ajuda do alumínio

Por Marcio Ishikawa

O tabuleiro do mercado de ônibus urbanos no mercado brasileiro ganhou uma nova e importante peça com o início das atividades da fábrica da BYD, localizada em Campinas, no interior de São Paulo. A marca chinesa está em atividade por aqui desde o final de 2015 e seus atuais oitenta funcionários realizaram operações de treinamento e também iniciaram a construção dos primeiros protótipos e a montagem dos primeiros lotes de ônibus elétricos puros de bateria (que não precisam ser conectados à rede elétrica, como os tróleibus) com carroceria de alumínio, através do sistema CKD (Completely Knocked Down). Em breve, chassis e baterias serão produzidos aqui e a carroceria, montada por empresas locais. 

A cerimônia oficial de inauguração da planta deve acontecer em março e, em que pesem as dificuldades econômicas vividas pelo Brasil, a expectativa da empresa é positiva. “Existe a necessidade de se qualificar o transporte urbano sem aumentar os custos e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões de poluentes”, diz Adalberto Maluf, diretor de marketing e relações governamentais da BYD, citando o caso da cidade de São Paulo, onde a partir de 2018 não serão mais homologados modelos com motor a combustível fóssil (diesel ou gasolina). “Acreditamos que esta é uma tendência para as outras cidades brasileiras muito em breve.”

Trata-se da Lei de Mudanças Climáticas (Projeto de Lei nº 530/08, também conhecida como Lei do Clima). Ela fará com que, nas licitações realizadas já a partir deste ano, haja a exigência da utilização de ônibus elétricos puros ou modelos híbridos – desde que os motores a combustão utilizem etanol ou biodiesel -, com vida útil prevista de sete anos. “Nossos ônibus já estão na fase final do processo de homologação técnica junto à Prefeitura da cidade de São Paulo”, explica o executivo, que destaca a importância da homologação para a maior cidade do Brasil. “São Paulo tem as normas mais exigentes. Uma vez aprovado lá, certamente temos um produto pronto para as demais cidades brasileiras. E nossos ônibus foram testados e avaliados em praticamente todas as grandes cidades do Brasil”. Em Campinas, já há uma frota regular de dez ônibus rodando na cidade desde o final de 2015.

Além dos chassis, a fábrica produzirá baterias de fosfato de ferro-lítio e também terá a operação do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, focado em criar diferentes tipos de chassi para o mercado brasileiro e, futuramente, também para todo o mercado sulamericano.

Ônibus em alumínio

Uma das principais característica dos ônibus da BYD é o uso intensivo do alumínio, que possibilita a redução de 40% do peso em comparação com um projeto similar em aço. Veja no quadro abaixo:

Ônibus elétrico da chinesa BYD Carroceria (incluindo teto e
estruturas de fechamento lateral)
– 580 kg
Rack de baterias – 400 kg
Rodas (conjunto de 6) – 120 kg
Redução total – 1100 kg

O alumínio ainda se faz presente em diversos componentes internos: carcaças dos motores na roda, equipamentos do trem de força (como o sistema de conexão à rede de energia e a caixa de distribuição de alta voltagem),  reservatório de ar e radiador. Maluf destaca outras importantes vantagens da utilização do metal. “Há um aumento de 10% na performance do ônibus e, também, foi possível usar com pacote de baterias reduzido no projeto sem comprometer a autonomia”, explica. “Além disso, o custo operacional total dos ônibus elétricos em relação ao diesel é 22% menor.”

O executivo ainda enumera outros benefícios, muitas vezes não lembrados, proporcionados pelo uso do aluminio:

  • Como é resistente à corrosão, o alumínio dispensa pintura, agilizando o processo de manufatura. Essa característica também simplifica todos os processos de manutenção e, ainda, oferece maior durabilidade.
  • O alumínio permite a redução do uso de soldas na linha de produção através do uso de fixadores – e estes ainda permitiram a união do alumínio e materiais dissimilares (leia mais sobre esta e outras técnicas de união do alumínio). Além disso, o alumínio é um material que oferece uma grande flexibilidade no processo produtivo.
  • Há um ganho duplo na questão da segurança. Primeiro, pela redução de peso em si, proporcionando frenagens mais eficientes. Segundo, pelo fato de que o alumínio absorve mais energia em um impacto que o aço.
  • Outro benefício é a sua característica antisséptica, que se reflete diretamente na saúde dos usuários.

Variedade – Os planos da BYD contemplam a comercialização de cinco modelos diferentes, que variam de 8 a 18,9 metros de comprimento. O principal produto é o K9W, modelo produzido especialmente para o Brasil, com 13 m (o K9 original tem 12 m), que além de ser um pouco maior, teve o seu interior redesenhado para se adequar ao gosto do consumidor brasileiro, trazendo novos bancos, janelas e acabamento interno. A autonomia do modelo é de 250 a 300 quilômetros, dependendo do tipo de tráfego enfrentado – segundo Maluf, distância suficiente para atender a uma jornada inteira de trabalho em 90 a 95% das linhas urbanas no Brasil. Dessa forma, o ônibus roda durante todo o dia e a sua recarga é feita durante a noite, em uma operação de, no máximo, duas horas.

BYD K9 - ônibus em alumínio
BYD K9 - Modelo de 12 metros recebeu mudanças para o mercado brasileiro e circula na frota de Campinas.
BYD K9 - ônibus em alumínio
BYD K9 - Modelo faz parte da frota do aeroporto de Schiphol, em Amsterdã (Holanda)
BYD K9 - ônibus em alumínio
BYD K9 - Modelo original chinês possui características diferentes do modelo que circula no Brasil
BYD K10 - Ônibus elétrico em alumínio
BYD K10 - O ônibus elétrico de 15 metros da marca chinesa foi testado em São Paulo
BYD K10 - Ônibus elétrico em alumínio
BYD K10 - O ônibus elétrico de 15 metros da marca chinesa foi testado em São Paulo
BYD K10 Double Decker - Ônibus em alumínio
BYD K10 Double Decker - A fabricante chinesa produz uma versão dois andares que circula em Londres
BYD KF1 - ônibus em alumínio
BYD KF1 - Articulado de 18 metros e piso alto, é destinado aos corredores BRT (Bus Rapid Transit)
BYD KF1 - ônibus em alumínio
BYD KF1 - Articulado de 18 metros e piso alto, é destinado aos corredores BRT (Bus Rapid Transit)
BYD K7 - ônibus em alumínio
BYD K7 - Portfólio da marca chinesa também tem um micro-ônibus elétrico
As baterias de fosfato de ferro-lítio são o que há de mais ambientalmente correto no mercado, pois são recicláveis e ainda possuem vida útil superior a dos próprios veículos. Na operação da BYD, elas serão fornecidas em um contrato de leasing – mas a empresa ressalta que esse custo é compensado integralmente pela redução nos gastos operacionais proporcionada pelos modelos elétricos, tanto no valor efetivo de deslocamento (R$ por quilômetro rodado) como também pela redução da demanda de manutenção dos veículos – é a mesma lógica que ocorre com os caminhões, como já mostrou reportagem anterior do Aluauto. O contrato também inclui o trabalho de instalação de infraestrutura nas garagens para os pontos de recarga.

A BYD espera atingir, até o final do ano, o índice de 80 a 85% de conteúdo nacional. Trata-se de uma marca importante pois, uma vez atingida, habilita os produtos ao Finame, programa que utiliza recursos do BNDES para financiar a aquisição de máquinas e equipamentos para empresas. Segundo Maluf, a busca por parceiros nacionais transcorreu sem dificuldades e, inclusive, houve uma mudança de planos importante no decorrer do projeto. “Inicialmente, planejávamos fabricar o ônibus inteiro: chassi, baterias e carroceria”, relembra. “Mas depois vimos que seria melhor trabalhar com as encarroçadoras locais”. As primeiras unidades produzidas aqui terão as carrocerias instaladas por tradicionais empresas do setor, Caio e Marcopolo.

Estudos – A cidade de Curitiba foi uma das que recebeu um dos ônibus da BYD para testes (um modelo K9 de 12 metros, ainda sem todas as alterações implementadas no projeto do K9W) e avaliações e ela realizou um estudo comparativo dos custos operacionais com outros três modelos: convencional com motor a combustão interna a diesel (Volvo), híbrido de sistema paralelo, em que a tração do veículo pode ser acionada pelos dois sistemas propulsores, alternadamente ou em conjunto (Volvo), híbrido em série, em que o motor a combustão não aciona a tração, mas funciona como um gerador para carregar as baterias da unidade elétrica (TEG).

De acordo com levantamento prévio, realizado pela Prefeitura de Curitiba em 2008, o segmento de transporte é o maior responsável elas emissões de dióxido de carbono, o principal gás causador do efeito estufa.

emissoes-por-setor

O ônibus elétrico teve o melhor desempenho no custo por quilômetro rodado – conforme ressaltou Maluf, a utilização do alumínio no projeto é de suma importância para tal resultado.

Custo por km rodado estudo de Curitiba, ônibus elétrico em alumínio

O modelo elétrico, que não emite poluentes ao rodar, apresentou o melhor desempenho nas emissões de dióxido de carbono. Na realidade, ele apresenta alguma emissão porque, no estudo, foram consideradas emissões indiretas emitidas por termoelétricas para a produção de energia elétrica usada recarregar as baterias. 

Estudo de Curitiba - emissões

A conclusão do estudo é que o elétrico da BYD obteve o melhor desempenho – ressaltando-se que não foi levado em consideração o valor de aquisição dos veículos, nem as formas de financiamento para tal ou, ainda, no caso do elétrico, do custo para construção de subestações de energia nas garagens.

Concorrente sueco – Outro modelo com propulsão elétrica e carroceria em alumínio foi apresentado no final do ano passado. Trata-se do Volvo 7900 Electric, já em sua versão de produção e que tem as primeiras unidades já rodando na Suécia. Ele utiliza um conceito diferente do modelo da BYD, com recargas curtas executadas nos pontos finais e também durante o próprio trajeto.

Volvo Electric Bus - ônibus em alumínio

Ainda não há nenhuma previsão da comercialização deste modelo no Brasil, mas a assessoria de imprensa do Grupo Volvo confirma que um exemplar virá para a América Latina para fazer um tour de demonstração ainda em 2016. 

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