29 de junho de 2018
Segundo relatório da consultoria CRU, segmento foi uma das surpresas positivas para a indústria do alumínio

Por Marcio Ishikawa |

O setor de caminhões extrapesados e de reboques nos Estados Unidos foi uma das surpresas positivas para a indústria do alumínio, apresentando crescimento na demanda por produtos extrudados, chapas e fundidos. É o que aponta recente relatório divulgado pela consultoria CRU, especializada em inteligência de mercado global nos setores de metais, mineração e fertilizantes, que aponta os principais motivos do aquecimento do setor de fretes naquele país.

Caminhões extrapesados
foto: Daimler Trucks North America

O documento, assinado pelo analista sênior Mike Southwood, ressalta que “o uso do alumínio em caminhões extrapesados, da chamada Classe 8, e nos reboques, tornou-se intensivo nos últimos anos – uma vez que os ganhos em eficiência energética já se provaram extremamente benéficos para as transportadoras, uma vez que o combustível é o segundo maior custo operacional, após as despesas trabalhistas”.

Em 2018, a CRU espera que o consumo em caminhões extrapesados e reboques irá corresponder a 8% do total de produtos laminados de alumínio, 14% do total consumido de alumínio extrudado e 2% do total de alumínio fundido. O documento ainda lista as principais aplicações:

  • Caminhões: rodas, portas, chassi e trem de força, entre outros
  • Reboques: rodas, tanques, silos, trilhos, painéis laterais, assoalho, paralamas, crash boxes, sistemas de suspensão, portas e componentes estruturais

O relatório também lista as ligas mais utilizadas no segmento:

  • Chapas: 3003 para teto de reboques; 6061 e 5052 para painéis laterais; variações da 6061 para a cabine
  • Extrudados: 6061-T6 e 6063
  • Fundidos: 6061 e A356.2 para as rodas, A380 e A319 para componentes de motor e transmissão

Mercado aquecido
No mercado de caminhões extrapesados, em 2017 o número de pedidos atingiu o nível mais elevado desde 2014 – sendo que, em comparação com 2016, o total de pedidos foi 58% maior. Em relação aos reboques, dados estatísticos da indústria mostram que os pedidos cresceram na casa de 40%. Esse crescimento resultou em uma grande reserva de pedidos ao final de 2017, causando um impacto positivo no ano seguinte  – apesar de previsões de mercado, anteriormente, terem previsto um fraco desempenho para 2018.

Nos quatro primeiros meses de 2018, a demanda no setor manteve-se em níveis recorde: no caso dos caminhões extrapesados, o número de pedidos no primeiro trimestre praticamente dobrou em relação ao primeiro quarto de 2017. Da mesma forma, os pedidos de reboques também foram robustos, com o acumulado no primeiro trimestre 26% maior que o mesmo período de 2017. A forte demanda levou os fabricantes a aumentar a produção em 2018 e, de forma geral, espera-se que esse impulso se reflita também em 2019.

Os fatores por trás da alta demanda
De uma forma geral, há uma falta de caminhões extrapesados e reboques para atender a demanda atual do mercado de fretes nos Estados Unidos. Isso explica o grande número de pedidos junto às fabricantes – de modo a assegurar a aquisição da produção futura dos veículos e, assim, aumentar a frota o mais rápido possível. Segundo o relatório da CRU, o aumento da demanda por caminhões e reboques é fruto do aquecimento da economia americana, do aumento nas vendas online, do baixo nível de desemprego e de mudanças nas leis tributárias, que incentivaram o crescimento.

Além disso, os caminhões possuem um ciclo de vida de quatro a cinco anos em boa parte das empresas, e o pico de vendas anterior foi no período de 2014/2015 – então, boa parte dessa frota será renovada nos próximos dois anos, o que tem reflexo no aumento do número de pedidos. Por outro lado, isso também indica um grande número de caminhões entrando no mercado de veículos usados.

Há, ainda, a implementação da regulamentação da Federal Motor Carrier Safety Administration (Administração Federal do Transporte a Motor, em inglês), que exige o uso de dispositivos de registro eletrônico (ELD – Electronic Logging Devices) em veículos comerciais. O dispositivo limita o tempo que um motorista pode operar o veículo em um único dia. Com estas novas regras em vigor, a disponibilidade dos motoristas foi reduzida, provocando atrasos nos carregamentos – o que coloca pressão nos transportadores para aumentar a frota de caminhões para adequar-se à demanda.

Novidades no mercado
Nikola, Tesla, Thor. Essas são as principais empresas que estão entrando no mercado de caminhões extrapesados valendo-se de propulsão alternativa, com modelos elétricos e elétricos a hidrogênio, o que já gerou um relativo interesse.

Assim como acontece com os automóveis elétricos, as propulsões alternativas demandam soluções de redução de peso, visando oferecer a maior autonomia possível. Segundo a CRU, a Tesla já recebeu pedidos consideráveis para o seu caminhão elétrico (25 da Loblaws, 15 da Walmart, 40 da JB Hunt, 40 da Anheuser Busch), enquanto a Nikola teria recebido pedido de 800 caminhões elétricos a hidrogênio da Anheuser Busch.

Ameaças ao bom momento
Os vários pontos de impasse nas conversas de renegociação do NAFTA – North American Free Trade Agreement (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, em inglês), podem comprometer esse bom momento, segundo o relatório de Southwood. Isso porque a indústria de transporte americana é extremamente dependente do NAFTA, uma vez que a maior parte dos produtos exportados para Mèxico e Canadá são transportados através de caminhões.

Ou seja, se as negociações para reestruturação do NAFTA não forem bem sucedidas, isso pode gerar um impacto negativo no setor de transporte, refletindo-se em efeitos negativos nas demandas de novos caminhões e reboques. O já citado aumento no inventário de veículos usados, é outra ameaça, uma vez que o mercado de usados passará a ter um grande número de opções.

Outra questão preocupante é que o mercado americano de frete enfrenta, no momento, uma falta de motoristas qualificados – o déficit, segundo a Associação Americana de Caminhoneiros,  foi de 50 mil motoristas em 2017, número que pode aumentar para 175 mil em 2026, caso a tendência seja seguida. Sem motoristas para operá-los, os transportadores não teriam porque adquirir novos caminhões e reboques, o que pode ser um potencial inibidor de um futuro crescimento.

Conclusões
A expectativa da CRU é que a produção de reboques e o consumo de alumínio atinjam seu pico ainda em 2018, enquanto a produção de caminhões deve permanecer estável até 2019. Tal expectativa pode mudar caso haja alguma reviravolta nas negociações do NAFTA, mas, no geral, as condições de mercado continuam a promover uma grande demanda de produtos de alumínio dos mercados de caminhões extrapesados e reboques.

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