3 de junho de 2016
Carroceria do Jaguar XE usa 75% de alumínio reciclado, fruto do projeto REALCAR, que demandou criação da nova liga RC5754

Por Marcio Ishikawa

O Jaguar XE nasceu com a difícil missão de se tornar o carro mais vendido da marca inglesa, competindo em um árido território dominado por BMW Série 3 e Mercedes Classe C. Apresentado ao mundo em abril de 2015, uma de suas armas é a moderna plataforma de alumínio, que economiza 130 quilos em relação à similar em aço, sendo fundamental para a performance combinada com a eficiência energética. Mas o sedã tem uma outra marca significativa, igualmente importante. Ele utiliza até 75% de alumínio reciclado em sua carroceria, o maior índice obtido até hoje em um modelo de produção.

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O XE é o fruto concreto da fase final do projeto REALCAR (REcycled ALuminium CAR), iniciado em 2008, liderado pelo grupo Jaguar Land Rover em parceria com a Novelis e financiado pela Innovate UK, agência governamental para inovação tecnologica. Seu objetivo era o de, atendendo todas as especificações necessárias para a indústria automobilística, criar um circuito fechado de reciclagem para modelos de produção, usando tanto a sucata da linha de produção como a dos automóveis ao final do seu ciclo de vida.

“O projeto REALCAR demonstra o nosso empenho frente aos desafios da sustentabilidade”, disse Nick Rogers, diretor do grupo de engenharia da Jaguar Land Rover no comunicado em que anuncia os números relativos ao projeto no primeiro ano de produção do XE. Foram recuperadas mais de 50 mil toneladas de sucata de alumínio, equivalentes a 200 mil carrocerias do Jaguar XE, que retornaram para o processo de produção. O fato de não utilizar esse peso em alumínio primário evitou que o equivalente a mais de 500 mil toneladas de CO2 entrasse na atmosfera. “O seu sucesso é um um passo importante no sentido de atingir o nosso objetivo de usar até 75% de alumínio reciclado nas carrocerias dos nossos veículos até 2020”.

Repensando os processos produtivos
De acordo com a Jaguar Land Rover, o projeto demandou investimentos de mais de 7 milhões de libras para adequar as linhas de montagem das três fábricas do grupo no Reino Unido às necessidades de qualquer projeto de reciclagem. Foi instalado um sistema de segregação para capturar e distribuir a sucata de alumínio, que precisa ser separada por tipos de liga. Foram também adquiridas máquinas de prensagem, que formam fardos com o material, que são enviados periodicamente para a Novelis, responsável pelo processo de reciclagem.

O projeto REALCAR ainda demandou, por parte da Novelis, o desenvolvimento da liga RC5754. “Trata-se de uma evolução da liga 5754 e ela é utilizada na parte estrutural e no chassi”, explica Fernando Wongtschowski, gerente de marketing e desenvolvimento de produto da Novelis, explicando que a liga, ainda, teve ganhos de formabilidade e resistência. “Isso permite a otimização dos projetos dos veículos. Os engenheiros poderão usar ângulo de dobra menores ou uma estampagem mais profunda em colunas, no assoalho ou chassi”. Além do XE, essa liga estrutural já está presente no SUV F-Pace e no sedã XF.

Segundo Wongtschowski, o principal desafio foi o de fazer com que a liga 5754 aceitasse mais material reciclado em sua produção. “No processo de reciclagem, não é possível separar os elementos que compõe a liga. Só podemos adicionar mais alumínio ou os demais metais”, explica. “É preciso garantir que o produto final mantenha as propriedades mecânicas e esteja dentro da janela de produção da liga, ou seja, que a sua composição esteja dentro da que é determinada pela Aluminium Association.”

É possível chegar perto dos 100% de alumínio reciclado, afirma Wongtschowski. “Mas, para chegar nesse patamar existe a necessidade de um volume maior de material disponível”, afirma, reiterando que não é possível misturar ligas diferentes no processo de reciclagem. “Demandará um tempo até que o ciclo vá se fechando e o volume de material disponível aumente.”

Economia circular
O projeto aparece com destaque no último relatório de sustentabilidade da empresa, sendo descrito como “um projeto de longo prazo que busca a constante evolução do modelo de circuito fechado de materiais que fazem uso da liga reciclada RC5754”. Para chegar à meta dos 75% de alumínio reciclado em todos os carros do grupo até 2020, a Jaguar Land Rover aposta na criação de uma economia circular.

O conceito de economia circular tem como principal meta a erradicação do desperdício, não apenas nos processos de manufatura, mas fazer isso sistematicamente ao longo de todo o ciclo de vida e uso dos produtos e seus componentes. O relatório aponta que comparando o ano de 2007 com o período 2014/2015, houve uma redução de 79% no desperdício por veículo, considerando todos os tipos de matéria prima, não apenas o alumínio.

Ainda de acordo com o relatório, os veículos da atual frota comercializada pelo grupo são projetados para serem 85% recicláveis e 95% recuperáveis. Além disso, a empresa garante ter desenvolvido metodologias para garantir que esses materiais sejam coletados ao final da vida útil dos veículos. No Reino Unido, por exemplo, a empresa é parceria do programa CarTakeBack, que possui 250 pontos de coleta espalhados por todo o território.

A reciclagem do alumínio
A utilização de alumínio reciclado tem grande impacto positivo na questão da sustentabilidade, pois o processo de reciclagem utiliza cerca de 95% menos energia do que a produção do alumínio primário. De acordo com a Novelis, 75% de todo o alumínio produzido desde o início da produção industrial em 1880 está hoje em uso – e a reciclagem de 1 tonelada de alumínio evita a emissão de 9 toneladas de CO2 na atmosfera.

Todas as etapas do ciclo fechado do alumínio
Todas as etapas do ciclo fechado do alumínio

De acordo com o International Aluminium Institute, a sucata de alumínio é categorizada como “sucata nova” e “sucata obsoleta”. A primeira refere-se ao material originado nos processos de produção, enquanto a segunda diz respeito aos produtos coletados ao final do ciclo de vida, após a sua utilização pelos consumidores – por isso, sempre mais contaminadas por impurezas dos mais variados tipos.

Tais impurezas são removidas através de processos de pré-tratamento ou nos fornos de fusão. Ainda de acordo com o International Aluminium Institute, o processo de reciclagem tem os seguintes passos:

– Combinações de diferentes sucatas são separadas com base na análise da composição das ligas antes de irem para os fornos de fusão.

– Após a fusão, o alumínio fundido é transferido para fornos de espera para processos de desgaseificação/ limpeza e adequação da composição química da liga

– A seguir o aluminio liquido é vazado para produzir placas que posteriormente serao laminadas para obtenção de novas chapas.

Divisão da produção de alumínio mundial
Divisão mundial da produção de alumínio nas últimas décadas: primário e reciclado

 

O montante de alumínio produzido a partir de sucata obsoleta cresceu de um milhão de toneladas em 1980 para 10 milhões de toneladas em 2009, ainda de acordo com o International Aluminium Institute. O setor de transportes tem sido a mais importante fonte de alumínio a partir dos produtos em fim de vida (42%), seguido das embalagens (28%).

O ciclo do alumínio na indústria automotiva
O ciclo do alumínio na indústria automotiva
Ciclo fechado

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